Quarta-feira, 2 de Julho de 2008
Crimes imperceptíveis
Crimes imperceptíveis, romance policial do argentino Guilhermo Martínez, possui uma premissa bastante interessante: um assassino em série cujos assassinatos parecem ser mortes naturais. A história se passa em Oxford, e o narrador é um estudante argentino que acompanha a investigação ao lado de um renomado matemático, o prof. Arthur Seldon. A dupla estabelece logo a dinâmica Holmes/Watson: o livro tem a estrutura dos antigos policiais, e está centrado na investigação e na lógica. A metáfora mais evidente do livro é, obviamente, a matemática. Segundo Seldon, como na matemática, “o que é a investigação criminal senão nosso jogo habitual de imaginar conjecturas, explicações possíveis que se encaixem aos fatos, e tentar demonstrá-las?” (Trad. Liliana da Silva Lopes. Planeta, 2004, p. 64). Mas ao se resolver um teorema, diz o narrador, é possível sempre apagar o quadro negro e recomeçar o raciocínio, do zero; “mas quando você estabelece hipóteses sobre o mundo real, introduz inevitavelmente um elemento de atividade irreversível que nunca deixa de ter conseqüências” (p. 102).
O romance possui alguns acertos, dentre eles uma resolução bastante interessante e algo surpreendente, coisa pouco usual no policial contemporâneo. Além disso, as digressões matemáticas não são exaustivas: estão a serviço do enredo, e as histórias sobre crimes, referidas pelos personagens, dariam um ou dois bons romances policiais. Mas um romance policial não é matemático: há algo de frio na condução do texto e na caracterização dos personagens que o impedem de ser mais do que correto. O que é pouco, considerando a enxurrada de títulos policiais que chegam às livrarias o tempo todo.
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O filme foi adaptado para o cinema com o título de Oxford Murders. Veja o trailer.
O romance possui alguns acertos, dentre eles uma resolução bastante interessante e algo surpreendente, coisa pouco usual no policial contemporâneo. Além disso, as digressões matemáticas não são exaustivas: estão a serviço do enredo, e as histórias sobre crimes, referidas pelos personagens, dariam um ou dois bons romances policiais. Mas um romance policial não é matemático: há algo de frio na condução do texto e na caracterização dos personagens que o impedem de ser mais do que correto. O que é pouco, considerando a enxurrada de títulos policiais que chegam às livrarias o tempo todo.
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O filme foi adaptado para o cinema com o título de Oxford Murders. Veja o trailer.
Sábado, 28 de Junho de 2008
Os contos de Flannery O'Connor (3)
Saiu hoje, na edição on-line do Le Monde Diplomatique Brasil, minha resenha sobre os Contos completos de Flannery O'Connor. É o número 35 do Palavra, o suplemento literário do LMD.
Terça-feira, 24 de Junho de 2008
Doris Lessing volta das compras
O vídeo acima flagra Doris Lessing voltando das compras e sendo comunicada de que havia vencido o prêmio Nobel. Do tipo: "só me faltava essa".
Domingo, 22 de Junho de 2008
Uma crônica
Uma bela crônica assinada pela escritora Inês Pedrosa, a respeito do prof. Haquira Osakabe.
Sexta-feira, 20 de Junho de 2008
Os contos de Flannery O'Connor (2)
A recente edição dos Contos completos de Flannery O’Connor, pela Cosac Naify, traz um ótimo ensaio do escritor Cristóvão Tezza. Ele localiza no conto “Gente boa da roça” um exemplo emblemático do estilo de O’Connor: um personagem é definido como sendo “tão real quanto vários sacos de cereais empilhados”. Segundo Tezza, “o olhar narrativo não poderia ser mais materialista (...) O’Connor vê o mundo como uma entidade brutalmente concreta, que para ser reconhecido precisa não de uma tese, mas de um olhar que lhe dê uma dimensão física”.Essa objetividade tem muito de Tchekhov, com quem a autora já foi comparada. Claro: talvez todos os contistas realistas de primeira metade do século tenham sido comparados a Tchekhov, da mesma forma que os “irrealistas” seriam comparados a Kafka. Mas existe um lugar comum redutor segundo o qual seria “tchekhoviano” qualquer conto dito “de atmosfera”, definição das mais vagas (Katherine Mansfield também já sofreu dessa redução). Mas a lição de Tchekhov aprendida pelos bons contistas é a de que o olhar realista é implacável, não impõe leituras sociológicas nem dignifica romanticamente seus personagens (o homem russo de Tchekhov é rebaixado em sua mesquinhez, ao contrário do que fariam alguns escritores seus compatriotas).
No conto “A colheita”, de Flannery O’Connor, uma escritora, ansiando por uma prosa que revelasse as misérias sociais, termina por compor fantasias, quase eróticas, sobre os trabalhadores a cuja memória pretendia fazer justiça social. Como uma declaração de princípios literários às avessas, a personagem não poderia estar mais distante da literatura de O’Connor. Sem idealização, a autora trata dos temas católicos (responsabilidade, fé, penitência) com objetividade, sem nunca rebaixá-los ao dogmatismo.
A chave de casa
Mais um livro sobre a memória, desta vez a memória familiar: A chave de casa, de Tatiana Salem Levy, é um belo romance. A personagem narradora, não nomeada, recebe uma chave do avô, que abriria a antiga casa da família, na Turquia. O avô viera de lá ainda jovem, e nunca mais voltou. A neta, agora, empreende uma viagem para examinar e descobrir seu passado. Porém, como convém a investigações nessa natureza, a narrativa não é linear: são várias histórias (ou vários momentos de uma mesma história?) que se alternam em fragmentos curtos, compondo um painel (para não dizer mosaico, novamente) de um percurso íntimo e familiar: a vinda do avô para o Brasil, a vida clandestina dos pais, a viagem da neta à Turquia e, depois, a Portugal.
A escritora é do ramo, e evita os clichês mais fáceis da nostalgia. E é interessante como o corpo é implicado diretamente nas questões da memória e da identidade: os vários tipos de violência, a decrepitude física, o amor, o banho que limpa e machuca. E o peso da tradição:
“Penso que é por isso que somos judeus mesmo quando não o somos. Dizemos que se trata de uma questão genealógica, mas é sobretudo uma questão de medo: temos medo de esquecer o passado e ser responsáveis por isso (...). Se não esquecemos o passado não vivemos o presente. Você sabe, essa dor que sinto no corpo, os ombros pesados, é o passado não esquecido que carrego comigo. O passado de gerações e gerações” (Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 131).
A escritora é do ramo, e evita os clichês mais fáceis da nostalgia. E é interessante como o corpo é implicado diretamente nas questões da memória e da identidade: os vários tipos de violência, a decrepitude física, o amor, o banho que limpa e machuca. E o peso da tradição:
“Penso que é por isso que somos judeus mesmo quando não o somos. Dizemos que se trata de uma questão genealógica, mas é sobretudo uma questão de medo: temos medo de esquecer o passado e ser responsáveis por isso (...). Se não esquecemos o passado não vivemos o presente. Você sabe, essa dor que sinto no corpo, os ombros pesados, é o passado não esquecido que carrego comigo. O passado de gerações e gerações” (Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 131).
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