terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Caim


José Saramago, responsável por alguns dos romances mais interessantes dos anos 80 em Portugal — O ano da morte de Ricardo Reis entre eles — vem cometendo nos últimos anos livros como Ensaio sobre a lucidez ou As intermitências da morte, obras que muito têm colaborado para criar a imagem de um autor à beira do esgotamento de seus temas e recursos literários. Justiça seja feita, dois de seus últimos lançamentos, As pequenas memórias e A viagem do elefante, sem serem originais ou particularmente marcantes, são livros que entretém, e podem agradar os leitores de boa fé: seu texto é irônico, envolvente, menos difícil do que parece (o que ajuda o leitor a se sentir inteligente) e alcança algum lirismo em momentos bastante insuspeitos. Porém, quando Saramago retoma seus “grandes temas”, a pretensão da fábula obscurece qualquer prazer que o texto ainda possa despertar em seu fiel leitor. É o caso de Caim, seu último livro, e seguramente um de seus piores trabalhos.

Caim é um romance pretensioso e por demais ingênuo em suas má criações com a Bíblia. É bem diferente de O evangelho segundo Jesus Cristo: neste, tanto Jesus quanto seu pai terreno, José, são personagens bem construídos, como motivações bem definidas e conflitos coerentes com suas trajetórias. Há, enfim, coerência interna, independente das críticas que se possa fazer à abordagem da história bíblica. Já no caso de Caim, seu protagonista, o irmão assassino de Abel, é apenas um pretexto superficial para que o narrador possa julgar os episódios do velho testamento ao seu modo: como grandes exemplos da crueldade divina contra o homem.

A tese é explícita, e falta ao texto coerência interna: as viagens no tempo de Caim revelam as arbitrariedades de um narrador onipotente e tendencioso demais para que a história possa ser vista como algo mais do que a reunião de exemplos para sua “argumentação”. Nesse sentido, Caim é apenas um títere que serve aos propósitos do narrador. Mas também falta, digamos assim, rigor argumentativo, para um livro que se propõe, aparentemente, a “revelar” os absurdos do discurso religioso. Por que atacar a religião cristã através das histórias bíblicas, as quais muitos teólogos sérios admitem que não devem ser lidas literalmente? Não haveria outros caminhos, mais produtivos, para a argumentação sobre assuntos tão graves e importantes? Nesse contexto, os momentos de suposto humor — como a cobiça de um anjo pelos seios descobertos de Eva — soam apenas como desaforos ingênuos, inadequados à pretensão e à seriedade da tese do romance. Infelizmente.

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Vale dizer que as reações de repúdio ao romance — como a sugestão de um político para que Saramago renunciasse a sua cidadania portuguesa — também foram exageradas, para dizer o mínimo.

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A quem interessar possa, eis os links para dois vídeos: o primeiro é o trailer do livro, com um tom épico dos mais inadequados; o segundo reúne matérias sobre o escritor que foram ao ar na TV portuguesa.

domingo, 29 de novembro de 2009

Maria Judite de Carvalho

Maria Judite de Carvalho é uma escritora ainda — e injustamente — pouco lida no Brasil: não consta que algum de seus livros tenha sido lançado aqui. Isso não os tem impedido de serem estudados em alguns bons ensaios e teses. Contista, Carvalho fez poucas concessões aos textos mais longos, e criou uma obra coerente e poderosa, muitas vezes apresentada como descendente da obra de Katherine Mansfield, e comparada a de Clarice Lispector.

Suas personagens são geralmente mulheres solitárias, oprimidas por rotina mesquinha. Em crise existencial, só lhes resta a evocação do passado, processo poucas vezes pacífico: o passado não é idealizado, e nem sempre pode ser evocado à vontade dos personagens. É mais comum que a lembrança surja involuntariamente, e que o discurso indireto livre (de um narrador em 3ª pessoa que não abandona o ponto de vista dos personagens) o faça se integrar com a observação das cenas cotidianas. No mais das vezes, os objetos diários são o estopim da memória. Objetos que carregam a história que seus proprietários não têm, ou da qual foram alienados. São assim alguns de seus melhores contos, como “Uma varanda com flores”, “A absolvição”, “Seta despedida” e “As palavras poupadas”, obras-primas do conto português das últimas décadas.

É de se espantar, então, que entre seus livros figure um volume de histórias fantásticas, algumas próximas da ficção científica, outras do realismo mágico. Os idólatras (1969) devem soar, ao leitor de hoje, um livro algo anacrônico, meio démodé — como os são, aliás, a grande maioria das histórias futuristas escritas há mais de 30 anos. Ainda assim, algumas delas são do maior interesse: sem que haja um interesse direto na plausibilidade científica das histórias ou na construção de um universo futurista verossímil, a autora consegue transportar para um futuro indeterminado e algo mágico os conflitos essenciais dos outros livros. Destaque para “A floresta em sua casa”, conto fantástico que evoca os quadros do pintor Henri Rousseau, e “As mãos ignorantes”, sobre uma mulher que descobre a arte em uma sociedade futurista. Ao contrário, porém, dos romances de ficção científica nos quais a arte é o veículo para a humanização, neste conto ela é também fonte dos mais graves equívocos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A cidade perdida de Z



Z, a cidade perdida, de David Grann, conta a história do coronel inglês Percy Fawcett, que desapareceu tentando descobrir os restos de uma civilização perdida nos confins da Amazônia. Sua expedição final aconteceu nos anos 20 do século passado, mas Fawcett era um homem do XIX, de uma época em que ainda havia cantos não mapeados no planeta. Alguns deles só podiam estar na América.

Um dos pontos altos do livro é a clara habilidade que Grann demonstra ao reconstruir a história do coronel. Os capítulos alternam os diferentes focos da história: as aventuras anteriores de Fawcett, e a rivalidade de seus contemporâneos; o cavalheiro inglês que adentrou a Amazônia como que vestido para o chá da tarde no clube; a tirania de um líder sobre seus subordinados na selva; as dificuldades de Grann em descobrir o trajeto de Fawcett e se embrear na floresta; as teses mais ou menos científicas sobre a existência do Eldorado; os casos dos seguidores de Fawcett que, até hoje, buscam por suas pistas na selva.

Mas o mais interessante é descobrir em detalhes a ação do ambiente singularmente hostil de há quase cem anos: tribos canibais, flechas envenenadas, animais peçonhentos que cobrem os aventureiros durante o sono, fadiga, inanição e a ação sorrateira de um dos animais mais mortais do planeta, o mosquito (entre as inúmeras doenças que esse bichinho endemoniado pode transmitir, está uma insólita variedade de larva que brota sob a pele dos homens como bichos em uma fruta podre). Parece mentira, mas não é.

Esse é como um daqueles livros de aventura do século XIX, que mais tarde inspirariam aqueles filmes dos anos 50 que passavam na sessão da tarde (já nos anos 80). O mundo perdido era um dos mais célebres, e reza a lenda que Conan Doyle, autor desse romance algo absurdo que se passa em um distante platô amazônico povoado por dinossauros, teria se inspirado em seu amigo, o explorador Percy Fawcett, para compor sua história. Nada mais lógico.

A fantástica vida breve de Oscar Wao

Aquilo a que chamam de “literatura pop” normalmente faz da citação e das referências à cultura de massa seu principal procedimento narrativo. O que pode ser bem divertido, mas não garante qualidade literária; pelo contrário, pode ser um convite para a banalidade. Mas não é esse o caso de Junot Diaz, um escritor talentoso, responsável por um romance inventivo e curioso chamado A fantástica vida breve de Oscar Wao (Trad. Flávia Anderson. Record, 2009). A epígrafe do livro, retirada de uma HQ do Quarteto Fantástico, já dá o tom do romance.

A vida do jovem Oscar — um dominicano que, rompendo todas as expectativas dos estereótipos, é um verdadeiro nerd — é contada sob diferentes pontos de vista e narradores. Entre a vida na América e a violência do regime ditatorial dominicano, a família de Oscar lida com a maldição que lhe pesa há gerações, o fukú (corruptela de fuck you?). Regendo seu caminho parecem estar entidades míticas ou fantásticas, o que soa bastante verossímil. Afinal, diz um dos narradores, os dominicanos “têm uma extraordinária tolerância para fenômenos fora do comum. De que outra forma poderíamos ter sobrevivido ao que sobrevivemos?”

O livro é terrível, mas também engraçado. E Junot Diaz faz um uso bastante inteligente das notas de rodapé e das reflexões metaficcionais; particularmente interessantes são alguns comentários sobre verossimilhança literária, que perpassam toda a narrativa e culminam em um desafio ao leitor: “Essa é sua chance. Se optar pela pílula azul, prossiga, pela vermelha, volte ao Matrix”. Não se trata apenas de aceitar o jogo ficcional, mas de aceitar (ou não) o absurdo da História. Neste contexto, a ficção científica e o alheamento de Oscar são saídas possíveis, tão lógicas quanto quaisquer outras.

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Abaixo, uma entrevista de Junot Diaz, concedida ao projeto Authors@Google. Uma boa entrevista, com declarações bastante sensatas.

De volta?

Aos poucos, vou tentar recuperar esse blog. Há um ou outro comentário de livros que eu gostaria de colocar no ar. Mas que ninguém espere regularidade: as novas postagens, se vierem, serão bastante esporádicas.

domingo, 5 de julho de 2009

Mais uma pausa

Não tem jeito: o blog não é atualizado já há muito tempo. E, infelizmente, não o será tão cedo. Assim que voltar, aviso aos navegantes.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Prosa contemporânea: o blog

De uma das mais bacanas comunidades do orkut, nasceu uma experiência muito promissora, o blog Prosa contemporânea. Um grupo de amigos discute livros selecionados mensalmente pelo grupo. Fica a recomendação.

sábado, 14 de março de 2009

Elementares

Novo texto no Diplô: resenha do livro Elementares - notas sobre a história da literatura policial, de Mário Pontes.

quarta-feira, 4 de março de 2009

A cidade ilhada

Abaixo, o "booktrailer" (é assim que se diz?) do novo livro de Miltom Hatoum. A idéia dos trailers de livros parece que finalmente pegou no Brasil.

terça-feira, 3 de março de 2009

A viagem do elefante

Nova resenha no Rascunho, desta vez sobre A viagem do elefante, de José Saramago. Como sempre, a resenha nasceu de comentários deste blog.